Anúncios de grandes investimentos sempre chamam atenção e geram grandes expectativas, sobretudo em um estado como o Piauí, que ainda patina em vários indicadores sociais e tem processo tacanho de industrialização. É natural, portanto, que quando grandes empreendimentos - públicos ou privados - são anunciados, junto com eles nasçam também grandes expectativas em torno dos impactos que podem trazer para o estado e sua população.
Contudo, em muitos casos o tamanho da expectativa é correspondente ao tamanho da decepção. Foi assim com o Biodiesel na região de Canto do Buriti no primeiro governo do presidente Lula, com a Suzano Papel e Celulose no Médio Parnaíba, com o Laticínio Vale do Gurguéia na região de Cristino Castro e, pelo que vemos hoje, está sendo assim com o Usina de Hidrogênio Verde anunciada como revolução no início do atual governo de Rafael Fonteles (PT).
Agora, as atenções se voltam para mais uma grande possibilidade de investimento bilionário em solo piauiense, daqueles que podem impactar na economia do estado. Recentemente, em março de 2026, o Governo Federal realizou o maior leilão de geração de energia do Brasil, que movimentou R$ 515,7 bilhões e viabilizou a contratação de 100 usinas termelétricas a gás natural que vão ampliar a segurança energética do País.
Momentaneamente, a homologação do leilão está suspensa pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) devido à contestações judiciais. A agência preferiu suspender até que haja algum desfecho das ações. O leilão abriu uma disputa bilionária entre gigantes do setor elétrico.
Quatro usinas para o Piauí
Nesse leilão, o Piauí foi contemplado com quatro usinas que, juntas, terão capacidade de geração superior a 800 Megawatts, que equivale a aproximadamente quatro usinas hidrelétricas de Boa Esperança, no Rio Parnaíba, em Guadalupe. Com as usinas termelétricas, o Piauí vai receber quase R$ 4 bilhões em investimentos e poderá, enfim, deixar de ser o único estado do Nordeste que não possui gás natural em sua matriz energética.
Conforme o cronograma definido no leilão bilionário, as usinas do Piauí serão instaladas nos municípios de Altos, Teresina, Parnaíba e Luís Correia.
- Altos I (R$ 301.600.000,00)
- Teresina EPP (R$ 1.113.600.000,00)
- Amarração EPP (R$ 1.127.000.000)
- Portinho BEP (R$ 1.127.000.000,00)
A empresa ION Energia foi a vencedora do lote que inclui as quatro termelétricas no Piauí. Ao todo, foram 22 estados contemplados com o leilão e o Piauí é o nono em quantidade de usinas. Rio de Janeiro, Alagoas e Bahia com 15, 12 e 10 usinas, respectivamente, foram os três maiores beneficiados.
Em relação ao volume de investimentos previstos, o Piauí ficou na 8ª colocação geral.
Medo de perder
Mas, como em toda grande expectativa de investimento, há sempre muitos interesses envolvidos e o risco dos mais fracos serem passados para trás.
Em manifestação na Assembleia Legislativa do Piauí na semana passada, o deputado estadual Gustavo Neiva (Progressistas) demonstrou preocupação com o risco das usinas a gás natural do Piauí serem “desviadas” para outros estados, assim como já aconteceu em outros tipos de investimentos outrora vendidos como esperança de alavancar a economia do Piauí.
“A gente apela para que o Governo do Estado não deixe esse investimento sair do Piauí, como ocorreu com outros projetos que não viraram realidade, muitos eles por falta da atuação do governo. O governo tem que encabeçar esse movimento, tem que dar todas as condições para que esses investimentos se tornem realidade e cheguem ao estado do Piauí para gerar emprego, gerar renda, gerar tributos e, sem dúvidas, propiciar o desenvolvimento do estado. Nós torcemos para que isso se torne realidade e que o Governo faça a sua parte para não deixar esses investimentos fugirem do Piauí”, cobrou o parlamentar.
O que diz a Investe Piauí
O DistoIsto procurou a Investe Piauí, órgão do Governo Estadual responsável por atrair e conectar investidores ao potencial do estado. A reportagem enviou três questionamentos (disponíveis abaixo) ao diretor-presidente do órgão, Victor Hugo.
1) Quais impactos para a economia do Piauí a construção das quatro usinas termelétricas a gás natural (avaliadas em quase R$ 4 bilhões) pode trazer?
2) Já houve algum tipo de contato inicial de representantes do Governo do Piauí com a empresa ION Energia, vencedora do lote que contempla as quatro usinas em solo piauiense?
3) Como se sabe, investimentos bilionários como esse mexem com muitos interesses de grandes grupos empresariais e outros entes. O que a Investe Piauí pode fazer, dentro das suas atribuições, para assegurar que o Piauí não perca essas quatro usinas termelétricas?
Apesar dos questionamentos e da relevância do tema, a pasta se limitou a encaminhar apenas uma resposta curta. “A Investe Piauí está acompanhando o consórcio em questão e as informações públicas serão divulgadas somente após a homologação do leilão.”
Se o esforço para garantir que o investimento bilionário venha para o Piauí for equivalente ao tamanho da resposta, é bom os piauienses ficarem atentos.







