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Gustavo Almeida

O apelido do preso diz muito também sobre o delegado

Há um bom tempo ficou visível que o delegado Charles Pessoa explora demasiadamente a atividade policial para viabilizar um projeto eleitoral.

Charles durante a prisão de homem conhecido como "Rouba Cena" (Reprodução/Instagram)

Na manhã da última sexta-feira (28.nov.2025), o delegado da Polícia Civil Charles Pessoa postou vídeo em suas redes sociais efetuando a prisão de um indivíduo apelidado de “Rouba Cena”. Segundo a publicação, o homem preso em Teresina era, até então, a “principal liderança do PCC em liberdade no estado do Piauí”.

Como de praxe em seus vídeos bem editados e meticulosamente produzidos para gerar engajamento, Charles algema o preso enquanto lhe dá uma boa lição de moral para o público da internet ver. Tudo é filmado, com áudio e imagens bem captados.

O delegado Charles é o mesmo que, horas antes, na noite da quinta-feira (27.nov.), participou de uma reunião no Palácio de Karnak na condição de pré-candidato a deputado federal pelo PV, partido aliado do governador Rafael Fonteles (PT). Há algum tempo ele vem trabalhando com foco bem definido na disputa eleitoral de 2026 e, sem nenhuma cerimônia, usa a farda e as operações policiais para se promover como um delegado “influencer”.

Pelo que se percebe da atuação de Charles, não há o que se discutir quanto à sua capacidade como delegado e a sua eficiência como policial, sobretudo em ações de enfrentamento ao crime organizado. Até o começo de setembro, ele era coordenador do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). Também não se discute a sua bonita história pessoal, com origem pobre na zona rural de um município do interior do Piauí. 

Delegado é ativo nas redes sociais com vídeos, quase sempre fardado (Reprodução/Instagram)

Contudo, há um bom tempo ficou visível que o delegado explora demasiadamente a atividade policial para se projetar eleitoralmente. Existe um claro foco na persona de Charles Pessoa nas imagens das operações. O delegado tem uma equipe de marketing que o acompanha e qualquer pessoa com um nível cognitivo razoável percebe as intenções eleitorais por trás dos vídeos com falas bem elaboradas para as redes sociais.

Até mesmo na “fama” de influenciadoras do crime o delegado aproveitou para surfar com vídeos virais produzidos nas diversas operações que miraram as tais blogueiras em Teresina.

O uso da polícia como trampolim eleitoral tem sido uma praxe no Piauí nos últimos anos. Charles não é o primeiro. E tem um detalhe: muitos dos que fizeram esse caminho contaram com apoio de parte da imprensa que endeusa e puxa o saco, muitas vezes ajudando nos projetos eleitorais.

É correto reconhecer e elogiar delegados comprometidos – e Charles é competente e merecedor de reconhecimento –, mas é preciso ter limites para não descambar para puxa-saquismo com viés eleitoreiro.

O alto escalão da Segurança Pública deveria ser mais diligente para evitar que a polícia seja constantemente usada com fins de promoção eleitoral, como temos visto há um bom tempo. No caso de Charles Pessoa, ele tentou por muito tempo não revelar seus desejos eleitorais, embora suas ações fizessem exatamente o contrário. Agora, ele já não esconde, por isso apareceu em fotos na reunião política no Karnak, como pré-candidato a deputado federal ao lado dos seus futuros companheiros de chapa.

O vídeo bem produzido durante a prisão do bandido “Rouba Cena” e a presença no Karnak como pré-candidato não são nenhuma novidade em se tratando de Charles Pessoa. Quem é atento já tinha percebido as intenções do delegado, afinal, ele sempre faz questão de “roubar a cena” pensando no projeto eleitoral.

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