Volta e meia a administração superior da Universidade Federal do Piauí (e não falo apenas da atual) aparece relatando dificuldades orçamentárias e se queixando de cortes ou contingenciamentos de recursos por parte do Governo Federal. A intensidade das queixas costuma variar a depender da simpatia ideológica pelo governo, embora nos últimos anos todos eles tenham tratado as universidades com acentuado desprezo.
Na Universidade Federal do Piauí, instituição onde tive a honra de me formar, uma crise silenciosa se desenrola há alguns anos e não se limita à questão orçamentária. No quesito orçamento, é bom que se diga, a universidade perde recursos desde meados de 2014. De lá para cá, o orçamento não chegou a ter perdas nominais, mas teve sucessivas perdas reais, ano após ano. É como o valor salário que sobe R$ 100 enquanto os preços sobem mais e fazem com que o aumento, na prática, seja prejuízo.
Um profundo conhecedor da UFPI, que vivencia o dia a dia da instituição, disse à coluna que o pior ano dessa crise prolongada foi em 2016, no governo da petista Dilma Rousseff. Já ameaçada de impeachment e desesperada na tentativa de se manter no poder, Dilma largou tudo e deixou as universidades - não apenas elas - à deriva. Apesar dos anos seguintes não terem sido tão desastrosos quanto aquele fatídico 2016, a crise nunca cessou. E segue atual, no governo do senhor Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O detalhe curioso é que nas reuniões internas da administração superior a realidade dos problemas e o tom das queixas são de um jeito, publicamente são de outro, bem mais amenos e comedidos. Figura com presença nessas reuniões garantiu à coluna que há uma preocupação da gestão da UFPI em não “constranger demais” o Governo Federal expondo o verdadeiro nível de insatisfação. Até mesmo no ápice da crise no tempo de Dilma Rousseff havia uma prudência estimulada para não “desgastar” o governo.
Hoje, a universidade padece de sérios problemas estruturais e carências que se acumulam. Servidores da instituição disseram à coluna que desde a quinta-feira da semana passada, dia 16 de outubro, o campus enfrenta graves problemas de oscilação de energia elétrica. O que era oscilação virou falta total de energia no fim de semana e um gerador precisou ser acionado ainda na madrugada do sábado (18). Nesta segunda-feira (20), as atividades acadêmicas e administrativas tiveram que ser suspensas.
Em nota, a UFPI informou que houve uma pane elétrica provocada por um curto-circuito nos cabos de energia do painel de medição e proteção elétrica do campus Ministro Petrônio Portella. A nota diz ainda que, mesmo após a equipe de manutenção realizar reparo emergencial para isolamento dos cabos, o problema persistiu.
O datacenter precisou ser desligado para preservar a segurança e o funcionamento de toda a estrutura tecnológica da instituição. A pretexto de manter o discurso de expansão e crescimento, a universidade, ao longo dos últimos anos e em diferentes gestões, ampliou e criou espaços, sem que houvesse a preocupação de reforçar, entre outras coisas, a estrutura de fornecimento de energia. O que se nota é uma aparente sobrecarga. Mas, para além da questão da energia, expandir sem planejar é sempre um problema.
Outro percalço constante na UFPI é a internet. Alunos, professores e servidores reclamam que há problemas toda semana. Não há como deixar de considerar vergonhoso que a maior e mais importante instituição de ensino do Piauí enfrente problemas constantes com internet, até mesmo para o funcionamento do seu Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA), modelo trazido da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e usado na UFPI.
O fato é que a Universidade Federal do Piauí, assim como outras Brasil afora, precisa interromper esse ciclo dramático que se arrasta há mais de uma década. E que nenhum reitor tente atenuar a crise abrindo mão da firmeza na hora de cobrar, criticar e de tornar públicas as omissões governamentais, independente do espectro político que esteja no poder. O primeiro passo para superar uma crise é reconhecer a existência dela.







