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Gustavo Almeida

ANÁLISE: A foto, a justificativa e o direito da sociedade de questionar

Relação de amizade pessoal do governador com empresário preso pela PF fragiliza argumento de que, por ser uma figura pública, tem fotos com muitas pessoas.

Questionado pelo DitoIsto sobre a repercussão da foto em que aparece em um momento de lazer com o empresário Bruno Santos Leal, preso na terça-feira (30) pela Polícia Federal numa operação que desmantelou esquema criminoso na Secretaria de Saúde, o governador Rafael Fonteles (PT) apresentou sua justificativa. Disse que é uma figura pública e, por isso, é absolutamente normal tirar fotos com várias pessoas, inclusive empresários que têm ou não relação com o seu governo.

Rafael em farra com empresário Bruno (Reprodução/Instagram)

Não fosse alguns detalhes, a justificativa de Rafael poderia fazer sentido, já que, assim como os artistas de TV, autoridades políticas tiram fotos com muita gente e não há como saber a procedência de todo mundo. Até nós, reles mortais, podemos facilmente ter uma foto com alguém que, mais tarde, possa ser descoberto metido em alguma falcatrua ou atitude criminosa. Uma foto com alguém de comportamento duvidoso não pode, necessariamente, ser motivo para que nos vejam como cúmplice dessa pessoa.

No caso da foto de Rafael com o empresário preso, há várias circunstâncias que fragilizam a justificativa do petista. Essas circunstâncias, é importante destacar, não impõem, por si só, culpa ou participação do governador no esquema investigado, mas, considerando a sua posição de gestor público, fazem jus aos questionamentos legítimos por parte dos cidadãos, das instituições de fiscalização e controle e da imprensa.

A foto é um momento de lazer de dois amigos, que estão sem camisa tomando banho em um manancial em outro estado, que bebem alguma bebida e comem churrasco. Ambos estão com crianças que aparentemente são seus filhos, reforçando a relação extremamente próxima entre as famílias. É um contexto totalmente diferente de uma foto que qualquer político está sujeito a tirar com alguém em um comício, na inauguração de uma obra, numa reunião ou mesmo ao embarcar em um avião no aeroporto.

Mas não é só isso. A foto foi postada pela primeira-dama Isabel Fonteles em sua própria rede social. Quantas fotos de Rafael bebendo com cidadãos comuns ela publica em suas redes sociais? Ao verificar o Instagram de Isabel, nota-se que são poucas as fotos que ela posta da família em momentos de lazer, certamente para preservar o lado familiar da vida agitada e da exposição pública decorrentes do cargo de Rafael. Justamente por serem poucas as fotos de lazer, a publicação com o empresário Bruno reforça, ainda mais, o vínculo de amizade entre as famílias.

Aliado a isso, existem outros registros públicos da proximidade de Bruno com Rafael e com o Governo do Estado. Nesta quinta-feira (2), veio à tona outra foto de Rafael com Bruno e outros amigos curtindo o Carnaval num camarote em Salvador, em fevereiro deste ano. Na mesma turma estavam outros membros apelidados de “Rafaboys”, o grupo de amigos do governador. Além de Bruno e Rafael, aparecem na foto Marcelo Nolleto (secretário de Comunicação) e Washington Bandeira (da Educação). Quantos cidadãos comuns que lhe pedem para tirar fotos Rafael leva para o carnaval de Salvador?

Não há como negar a amizade. A relação clarividente coloca abaixo o argumento de Rafael de que, por ser uma figura pública, tira fotos com muitas pessoas. Teria sido melhor o governador admitir a amizade, falar de forma franca sobre a relação próxima com Bruno e se defender dizendo que o fato de serem amigos não significa que ele compactue com as atitudes atribuídas pela Polícia Federal ao seu amigo. Do ponto de vista político – e da comunicação – tentar “desfazer” a amizade com Bruno faz o giro virar um jirau.

Quando Rafael diz que estão fazendo uso político do caso, ele até pode ter razão em algum grau se considerarmos as disputas eleitorais comuns em todo lugar. No entanto, seria absurdo achar que, diante das circunstâncias, as pessoas – e os políticos também – não levantem questionamentos. Trata-se de um empresário amigo pessoal do governador, que tem contratos milionários no governo dele e que foi preso numa operação que aponta um grande esquema de corrupção na principal pasta do governo. 

Rafael não foi alvo da operação e tem o direito de defender a imagem dele e do seu governo. Assim como afirmou em entrevista à imprensa no Palácio de Karnak, é importante que não se faça julgamentos antecipados contra quem quer que seja, nem mesmo contra os empresários presos. No entanto, a cautela que se deve ter não tira o direito da sociedade de desconfiar e de questionar as circunstâncias dessa relação.

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