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Há 10 anos morria Padre Lira, um baluarte do semiárido piauiense

Sacerdote fez história com ações sociais e educacionais pioneiras no sertão do Piauí e ganhou projeção com a Fundação Ruralista.

Padre Lira em matéria da revista Nova Escola no ano de 1989 (Acervo/Gustavo Almeida)

No dia 13 de setembro de 2015, um domingo, o Piauí perdeu um personagem que fez história no semiárido. Naquela data, morria o padre Manuel Lira Parente. O sacerdote tinha 96 anos, sendo mais de 60 deles dedicados às causas do povo sertanejo.

Na segunda metade do século XX, o religioso católico ganhou projeção com ações sociais ousadas e pioneiras que garantiram assistência numa região em que a presença do estado era precária. O estilo de padre à moda antiga, com personalidade de traços autoritários e jeito autocrata, não o impediu de virar uma referência de homem público nas áreas social, educacional e no enfrentamento obstinado ao flagelo da seca.

Padre Lira na comunidade Fechadão, em São Raimundo Nonato (Acervo/Fundação Ruralista)

Natural de Bom Jesus, no Sul do Piauí, oriundo de uma família abastada, Lira ficou órfão de pai e mãe ainda muito cedo. Ordenado padre em 1945, se radicou em São Raimundo Nonato, região que ele faria história - e ajudaria a mudar a história. Foi lá que começou sua inquietude com as mazelas sociais e, assim, iniciou a atuação voltada para o amparo do povo sertanejo. 

Percorreu toda a região nas antigas “desobrigas missão”, quando padres católicos desbravavam os confins do semiárido montados a cavalo celebrando missas, casamentos, batizados, dando extrema-unção e levando assistência aos flagelados. É da mesma turma de padres relevantes como Solón Pinto de Aragão, Raimundo Dias de Negreiros e Nestor Dias Lima, ordenados pelo bispo Dom Inocêncio Lopez Santamaría.

Em São Raimundo, no ano de 1948, Padre Lira foi fundador do Ginásio Dom Inocêncio, o primeiro do sudeste do Piauí. Começava ali, também, o seu legado na educação. Ele foi professor e dirigente da escola, que marcou época na região. Na década de 1950, foi prefeito de São Raimundo Nonato, mas, segundo ele mesmo relatou em alguns de seus escritos, vislumbrava uma missão que considerava muito maior.

A Fundação Ruralista
Depois de exercer o mandato de prefeito, Padre Lira decidiu deixar a política. Pediu uma licença de quatro anos e foi para São Paulo arrecadar fundos para criar aquela que seria sua grande obra: a Fundação Ruralista. Escolheu a parte mais distante e isolada da região, a área do então distrito de Curral Novo (hoje Dom Inocêncio) para erguer a entidade. O estatuto previa que a fundação tinha que ser na zona rural e um dos seus objetivos era fixar o homem no campo, garantindo uma vida mais digna às famílias da região.

As atividades da Fundação começaram em 1963. Numa área extensa, afastada mais de 100 km de São Raimundo Nonato, o Padre Lira iniciou sua saga. 

Vista aérea do povoado-sede da Fundação Ruralista, zona rural de Dom Inocêncio 

A Fundação Ruralista abriu estradas, fez açudes, promoveu o artesanato, implantou uma rede de 23 escolas espalhadas por várias comunidades e criou programas de geração de renda para as famílias, como condicionante para a permanência dos alunos nas escolas. Conseguiu ambulância, criou a primeira maternidade rural do Piauí para conter os índices de mortalidade infantil existente naquelas décadas e trouxe enfermeira até de Santa Catarina. A maternidade era, também, uma espécie de posto de saúde.

Lira conseguiu uma rede de benfeitores importantes em São Paulo, no Rio, em outros estados e até em outros países, fazendo com que a Fundação recebesse vultosas ajudas ao longo de décadas. Uma dessas ajudas, por exemplo, foi uma bem-sucedida parceria com o Instituto Butantan, que garantia, já naqueles tempos, remessas de soro contra picadas de cobra, outra causa de morte de sertanejos na região nos idos das décadas de 60 e 70. A fundação atuava em todas as frentes. Era o “governo” da região.

Caminhão da Fundação a serviço da população

Em 1973, o trabalho da Fundação ganhou o mundo. Após visitar a entidade, a escritora inglesa Peggie Benton lançou em Londres o livro “Um Homem Contra a Seca – luta e realização no Brasil”. A publicação contou em detalhes a saga do Padre Lira e a realidade da região assistida pela Fundação Ruralista.

O lançamento em Londres ganhou matéria de página inteira no Jornal do Brasil, feita pelo correspondente na Inglaterra. Depois, o livro foi traduzido para português e chamou atenção no Brasil. Mais tarde, a escritora Peggie Benton teve nome colocado na maternidade da Fundação.

O livro "Um Homem Contra a Seca" nas versões em inglês e português

Foi a partir de “Um Homem Contra a Seca” que a Fundação passou a atrair novos benfeitores, alguns deles personalidades importantes do país. Padre Lira se tornou um personagem ainda mais admirado e influente. Era respeitado na classe política tradicional, com quem sempre manteve ligações. Por várias vezes, a Fundação Ruralista recebeu autoridades, equipes de reportagem e representantes de governos que queriam ver o modelo desenvolvido pelo padre, que apostava na educação adaptada à realidade local.

Padre Lira era avesso à burocracias, razão pela qual, em muitas ocasiões, colocou o seu jeito autoritário a frente de projetos. Nos tempos atuais, em que conseguir recursos e tocar obras é cheio de empecilhos (mecanismos necessários por conta da cultura corrupta do Brasil), Lira certamente teria muita dificuldade de impor o seu estilo. Para alguns, ele tinha fama de coronel, mas sua marca maior era a de realizador. Dizia não com sinceridade e pouca simpatia, mas quando dizia sim, era a certeza da coisa feita.

A criação do município
Em 1988, após três décadas de trabalho com a Fundação Ruralista, Padre Lira realizou outro sonho: a criação do município de Dom Inocêncio, desmembrado de São Raimundo Nonato. O então povoado de Curral Novo, distante 10 km da sede da Fundação, passou a ser cidade.

Matéria da revista Nova Escola em 1989 destacou legado educacional (Acervo/Gustavo Almeida)

Entre as muitas ações para possibilitar a emancipação, a Fundação Ruralista custeou e capitaneou um mutirão de construção de casas no núcleo urbano do povoado, a fim de atender a exigência mínima de edificações para a emancipação. Emancipado em 7 de junho de 1988, o município foi instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1989, com a posse de Padre Lira como seu primeiro prefeito. Ele foi candidato único.

Lira ainda viria a ser prefeito da cidade outras duas vezes. Em sua última eleição, em 2004, foi eleito com 85 anos, sendo prefeito mais velho do Piauí e um dos mais velhos do Brasil na época. Renunciou ao mandato em 2007, por conta de problemas de saúde.

Apesar das passagens marcantes e bem-sucedidas pela política, foi com a Fundação Ruralista que ele se fez gigante. Sua morte em 13 de setembro de 2015 comoveu toda a região. O corpo foi velado e sepultado dentro da Igreja Matriz de São Raimundo Nonato, onde está, também, o jazigo do bispo Dom Inocêncio. Passados 10 anos, o legado de Padre Lira segue vivo e vai perdurar por muito tempo no semiárido do Piauí.

Padre Lira com alunos (Foto: Glória Nunes)

Hoje, a Fundação Ruralista sobrevive a duras penas, sem o protagonismo de antes e com parcos recursos para se manter.

Já faz alguns anos que a direção da entidade empreende esforços para abrir, em sua sede, um memorial em homenagem ao padre e à própria entidade. Será uma espécie de museu aberto à visitação para que as novas gerações conheçam o legado do sacerdote que fez história nos confins do sertão piauiense.

Veja o vídeo:

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