Ao longo dos anos, o deputado estadual Georgiano Neto, homem forte do PSD alojado no MDB, construiu a fama de invadir bases eleitorais dos colegas, sejam eles governistas ou oposicionistas. O parlamentar, por sua vez, sempre negou o rótulo de invasor, argumentando que nunca saiu de casa para tomar base de ninguém, mas que as lideranças o procuram espontaneamente querendo aderir à sua base política.
O argumento nunca convenceu. Embora Georgiano alegue que não vai atrás de lideranças alheias, no meio político existe, via de regra, uma espécie de “Fair Play”, onde um deputado só costuma anunciar o apoio de uma liderança quando esta, primeiro, desfaz o vínculo com o político a quem era ligado. Em muitos casos, até informa o colega de que foi procurado pela liderança, num gesto de respeito. Georgiano não age assim.
Contudo, em 2025, ele vinha sendo forçado a mudar. Com lideranças de vários partidos demonstrando resistência em apoiar a pré-candidatura de Júlio César (PSD), pai de Georgiano, ao Senado Federal, ele teve que conter o ímpeto por mais votos. A resistência a Júlio se deu justamente como reação ao comportamento político do filho.
Para diminuir as resistências, Júlio César disse que conversou sério com o filho e que, a partir da conversa, Georgiano tinha parado atrair lideranças. Em reuniões com membros da base do governo, o próprio Georgiano garantiu a mudança de comportamento, tudo em nome da paz com os colegas e, claro, com interesse na eleição do pai para senador em 2026.
No entanto, o gesto de bom comportamento não durou muito tempo. Nesta semana, Georgiano entrou em rota de colisão com deputados do PT ao anunciar a filiação do ex-governador Wilson Martins ao PSD, após levá-lo ao encontro de Gilberto Kassab em São Paulo. Pré-candidato a deputado federal, Wilson é uma das principais peças do PT na estratégia proporcional para a Câmara Federal. Sua saída é uma baixa relevante na chapa petista.
O anúncio surpresa, feito pela imprensa, gerou fortes reações de deputados petistas, como Francisco Costa e Merlong Solano. O primeiro chegou a afirmar que Georgiano age com “deslealdade” para prejudicar o PT e avisou que, de agora em diante, não tem nenhuma obrigação de manter compromisso com a pré-candidatura de Júlio César ao Senado. “Da minha parte, quem quiser agir nesse formato, tranquilo, agora não espere fidelidade por parte do deputado Dr. Francisco”, disse o petista à TV Meio.
Wilson Martins, que decidiu sair, foi poupado das críticas. Georgiano levou todas as pauladas.
Essa crise protagonizada por Georgiano Neto na base aliada nos faz lembrar da síndrome do escorpião. A conhecida fábula diz que, certa vez, o escorpião pediu ao sapo para atravessá-lo em um rio, levando-o em suas costas. O sapo perguntou se ele não iria picá-lo durante a travessia e o escorpião deu a palavra, garantindo que não. Acreditando, o sapo decidiu ajudá-lo e, já no final da travessia, o escorpião o picou.
Ferido, o sapo questionou por que o escorpião fez aquilo mesmo após ter dado a palavra. Então, o escorpião respondeu que picou porque é da sua natureza.







