Morreu na madrugada desta quarta-feira (4) em São Raimundo Nonato, aos 92 anos, a arqueóloga Niède Guidon, responsável por uma das maiores revoluções no estudo da presença humana nas Américas: a descoberta de vestígios milenares na região da Serra da Capivara, no Piauí. Com uma carreira marcada pela dedicação, coragem e firmeza, Guidon deixa como legado não apenas de descobertas científicas de alcance internacional, mas também a preservação de um patrimônio cultural e natural inestimável no sertão nordestino.
Natural de Jaú, no interior de São Paulo, Niède Guidon formou-se em História Natural na Universidade de São Paulo e doutorou-se em Arqueologia na Sorbonne, na França. Foi durante sua atuação na década de 1970, ao lado de equipes franco-brasileiras, que ela iniciou as escavações na região de São Raimundo Nonato, no sul do Piauí — território até então negligenciado pela comunidade científica, mas que viria a se tornar um dos mais importantes sítios arqueológicos das Américas.
Na Serra da Capivara, Guidon encontrou pinturas rupestres e vestígios que remontam a mais de 50 mil anos, desafiando a teoria dominante sobre a ocupação humana nas Américas, que estabelecia a presença humana no continente há cerca de 12 mil anos. Suas pesquisas, publicadas em revistas científicas internacionais, despertaram atenção, colocando o Brasil no centro de um debate global sobre as origens do povoamento americano.
Determinada a proteger e divulgar esse patrimônio, Guidon liderou a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco em 1991. À frente da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), ela lutou incansavelmente pela preservação do parque, enfrentando o descaso do poder público e a escassez de recursos. Com seu estilo firme e sua presença constante na região, transformou São Raimundo Nonato em um polo científico e turístico, apostando também na educação e no desenvolvimento sustentável como forma de valorização local.
Mesmo após aposentada formalmente da direção da FUMDHAM, Guidon seguiu ativa como conselheira e figura simbólica na defesa do parque e da ciência brasileira. Sua trajetória é marcada por prêmios nacionais e internacionais, e por uma postura ética inabalável diante das adversidades.
A morte de Niède Guidon representa a perda de uma das maiores figuras da arqueologia nacional, mas seu legado continuará vivo nos paredões pintados da Serra da Capivara, nas trilhas que ela ajudou a abrir — físicas e intelectuais — e no exemplo de quem soube unir ciência, patrimônio e compromisso social.







