No afã de evitar que prefeitos e lideranças do PT apoiem a reeleição do senador Ciro Nogueira (Progressistas) em 2026, o deputado estadual e presidente do PT no Piauí, Fábio Novo, tem prometido punição exemplar e ameaçado seus colegas de partido de expulsão. Na sexta-feira (19), a Executiva Estadual, sob o seu comando, suspendeu por 60 dias a filiação do prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro, por ter gravado vídeo dizendo que vota em Ciro.
Na condição de dirigente, é legítimo que Novo cobre fidelidade dos filiados, mas os argumentos que ele usa são um mar de contradições. Além disso, há quem veja como erro gravíssimo de estratégia o deputado provocar desgaste com os prefeitos petistas – e são dezenas – que votam em Ciro Nogueira para o Senado, mas que, para o governo do estado, votam em Rafael Fonteles (PT). Ao punir os gestores na ânsia de tentar derrotar Ciro, Novo pode prejudicar a reeleição de Rafael.
Mas voltemos à contradição nos argumentos. Numa entrevista na sexta-feira (19.dez.) ao programa Jornal do Piauí, da TV Cidade Verde, Fábio Novo disse, de forma clara, objetiva e eloquente, que os prefeitos do PT que recebem emendas parlamentares – verbas públicas – destinadas pelo senador Ciro Nogueira estão “se vendendo” e “traindo o partido”. Em seguida, sentenciou: “Que história é essa! Eu não aceito um negócio desse”.
Não bastasse a gravidade de querer impedir que gestores recebam recursos para seus municípios, a fala de Fábio Novo contradiz outro trecho da mesma entrevista. Ao criticar Ciro e enaltecer os governos do PT, o deputado acusou o senador de, quando ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, bloquear emendas do senador Marcelo Castro (MDB) para o Piauí. Por essa e outras razões, ele avalia que Ciro é o maior “inimigo” – e não adversário – dos governos do PT.
Ora bolas! Ao tempo em que acusa Ciro de supostamente ter impedido a liberação de recursos destinados por um senador aliado do PT para o Piauí, Fábio Novo quer impedir que prefeitos do PT recebam recursos destinados pelo senador de oposição. E, para colocar seu desejo em prática, pune gestores e os ameaça de expulsão. O que se nota é que, pela lógica – ou falta dela – dos argumentos do presidente petista, a vinda de recursos públicos para os municípios só é válida quando gera dividendos eleitorais para o PT.
Neste sábado (20.dez.), depois da repercussão desastrosa das declarações dadas na TV, Fábio Novo tentou “desdizer” o que disse. Em resposta a um vídeo publicado pelo presidente estadual do Progressistas Joel Rodrigues, o dirigente do PT adotou a velha prática de falar que se trata de “fake news” e alegou que nunca disse ser contra que os prefeitos do PT recebam emendas de Ciro.
Ele garante ser a favor que o senador mande emendas para todos os municípios, inclusive os governados pelo PT. Segundo Novo, o que foi dito na entrevista é que ele é contra a “vinculação” das emendas ao apoio político.
Contudo, essa ponderação não foi feita na entrevista. O trecho é claro: “Quando você se filia num partido político você está assinando um compromisso de que vai seguir as orientações do partido. Então, quem está recebendo emenda do senador Ciro Nogueira está traindo o partido, está se vendendo. Não pode ter essa venda. Inclusive é uma venda escancarada, pública. ‘Vou votar no Ciro porque ele está me dando uma emenda.’ Que história é essa! Eu não aceito um negócio desse!”, afirmou o petista.
Era melhor o presidente do PT ter calçado as sandálias da humildade e dado uma desculpa de que se expressou mal, de que quis dizer uma coisa e pecou na construção da frase. Seria menos feio e talvez diminuísse o estrago. Recorrer ao expediente de falar que é “fake news” só piorou a situação.
Se boa parte dos prefeitos do PT já tinha simpatia pela reeleição do senador Ciro, a entrevista de Fábio Novo certamente contribuiu para aumentar esse sentimento.







